Run like hell my dear
From anyone likely
To put a sharp knife
Into the sacred, tender vision
Of your beautiful heart.

— Hafiz

La belle

“Se pudesses viajar pela última vez, para onde irias?”. A resposta pareceu saltar-me da boca. Foi imediato. Soube que iria para Paris. Soube que Paris, segura de todas as suas infindáveis qualidades (que ofuscam os defeitos), não me desiludiria.
Paris reserva-me o certo e ainda o desconhecido. A possibilidade de descobrir algo de novo e redescobrir o que vi e ainda lá está. Como descrever a capital de um país com trezentos e sessenta e cinco tipos de queijo? O que faz de Paris aquilo que é?
Um cliché, pode ser, mas ainda está para vir uma cidade que dispute Paris pelos títulos “cidade do amor”, “cidade da luz”. Posso tentar explicar-vos, descrever Paris, mas penso que toda aquela grandeza não sairá jamais descrita pela boca de um humano. Visitem Paris e saberão porquê. 
Revisitaria Paris, sim. À medida que fui escrevendo estas palavras pensava “ainda vais a tempo; apaga tudo e podes ir a qualquer outro ponto do Mundo” mas as margens do rio Sena, as galerias do Louvre, os corredores do Pompidou, o Arco do Triunfo, a Torre Eiffel, os quatro prédios da grandiosa biblioteca nacional, o grande polegar de La Défense, tudo isto me faz querer entrar no avião agora e me perder na “cidade da luz”, sentar-me nos bancos do Louvre e observar as reacções de todos à Mona Lisa. Há quem chore, há quem, incredulamente, se pergunte porque pagou o dinheiro da entrada para ver aquele A4 que não é tão impressionante assim e eu hei-de ficar focada no grande quadro que se encontra do outro lado da sala, que ocupa a parede inteira e, a cada segundo, me oferece algo de novo (ao passo que a Mona Lisa só me oferece cegueiras temporárias de flash). Não me deixem enganar-vos, é um quadro extremamente bonito, poderoso e, da primeira vez, olhei-o durante bastante tempo, fascinada. Mas, ao voltar, não é o tipo de coisa que nos vá surpreendendo. Fica por lá, para a descoberta dos que vêm pela primeira vez. Vou sair do Louvre e passear-me pelas margens do Sena, comprar livros aos vendedores que por lá se instalam e percorrer as ruas da cidade que me faz mais feliz para onde me levarem. Paris, um poço infindável da arte, da cultura, da moda. Vou descer, feliz, os campos Elísios.
Se há alguma cidade que nos reserva uma surpresa constante é Paris. Posso, um dia, acabar inscrita em aulas de sapateado durante dois meses, depois num curso de pintura ou num clube de livros. A oportunidade de fazer tudo, um pouco de tudo, está em Paris.
Paris. Quero entrar por aí adentro, instalar-me e deixar que me cresçam raízes. Paris. O sítio onde uns vão para viver, outros vão (propositadamente ou não) para morrer, uns para estudar, uns para trabalhar, uns à procura de qualquer coisa que mais nenhuma cidade no Mundo poderá oferecer.
(Sentar-me-ei nos jardins do Luxemburgo e amaldiçoar-me-ei por ter escolhido para a minha última viagem uma cidade que mal consigo descrever. )
Paris, que parece todo o dia estar envolta num brilho que ofuscará as cidades vizinhas. Paris. Bonita a qualquer hora do dia. Seja amanhecer ou entardecer quando é atingida pelo Sol fraco. Seja meio da noite e uma certa magia reine no ar ou o sol do meio-dia que anima e desperta todo o espírito de descoberta.
Quem vai a Paris e consegue dormir? Foram as viagens mais cansativas da minha vida. A cidade não pára, não espera por nós. Tudo vai continuar a acontecer.
Quero perder-me no bairro Marrais, que é o maior confronto cultural que conheço (um bairro simultaneamente habitado pela comunidade judaica e pela comunidade homossexual). Paris esgota-me e levanta-me o espírito logo de seguida com qualquer coisa bela, nova, surpreendente. É uma relação muito sadomasoquista que temos. 
Sentar-me-ei, sem forças, no Jardim dos Grandes Exploradores, onde fica a minha estátua favorita: um grupo de pessoas seguram um globo e estão cercadas por figuras que saem da água, meio-cavalos e meio-peixes. Paris é meio-cavalo meio-peixe.
 Entrarei no Moulin Rouge e despedir-me-ei com um “au revoir” que, por querer dizer até já, ajuda a suavizar o desespero da incerteza do regresso.
Out of all the things I have lost, I miss my mind the most.

"Como é que arranjas tempo para ler tantos livros?"

É sempre a mesma pergunta. As pessoas são diferentes, mas perguntam todas o mesmo. A verdade é que não tenho tempo. Tenho tanto ou menos tempo que todas as outras pessoas. Eis, então, o meu segredo: leio na sanita, trago um livro sempre comigo na mala (e um suplente se este está a chegar ao fim), leio enquanto espero que a água do banho corra ou que a que está na panela ferva, leio enquanto espero nas filas, leio nos transportes públicos, leio na cama.
Estava acordada já há uma hora e, no entanto, continuava deitada, a olhar o tecto. Branco. Com, exactamente, duas e meia - uma nascia da anterior - rachas. Ele entrou, toalha em volta da cintura e o cabelo a pingar.
- Bom dia. - o sorriso dele.. contagioso. Sorria e espreguiçava-se. - Há quanto tempo estás acordada?
- Erm.. - ela virou-se para olhar o relógio. 10:27. - Uma hora e.. quatro minutos.
- Pequeno-almoço?
- Não tenho fome. - olhou para o tecto, novamente.
- A ressacar? - ele enfiou uns boxers e secou o cabelo com a toalha.
- Bastante. - suspirou. - Não me lembro de nada que possa, eventualmente, ter-se passado ontem à noite.
- Bem, - ele sentou-se na borda da cama. - bebemos uns copos. E, quando te apagaste, pus-te na cama.
Ela tinha algumas memórias soltas. Discos de vinil do Bob Dylan. Vinho tinto de má qualidade. Conversa solta sobre livros e autores. Desenhos com aguarelas. O resto sugado por um buraco negro na cabeça.